o fantástico mundo de bob
sábado, janeiro 04, 2003
 
A Natureza do Mal

Assistir a “O Senhor dos Anéis – As Duas Torres” — a segunda parte da já clássica trilogia do escritor inglês John Ronald Reun Tolkien transposta para o cinema pelo neozelandês Peter Jackson — não chega a ser uma experiência filosófica. O filme é eficiente para o que se propõe – no caso, entretenimento. Porém, um observador mais atento — e disposto a refletir — pode mergulhar nos meandros da natureza humana por intermédio das personagens de Tolkien. E foi o que fiz hoje. Necessitando entender um pouco mais sobre a realidade que vem me engolfando – e, admito, sobre mim mesmo — não obtive respostas conclusivas, mas não deixa de ser fascinante compartilhar com os amigos as teorias que daí advieram.

Cheguei ao cinema, no shopping Grande Rio (para os incautos, fica em São João de Meriti), cerca de dez minutos antes da sessão das 16h20m. Fila enorme (eu diria dobrando o quarteirão, mas, referindo-me ao interior dum shopping, essa figura de linguagem soaria ridícula), só fui comprar ingresso uns 25 minutos depois. E com um detalhe: para a sessão das 19h50m. Ou seja, mais de três horas esperando Godot.

Nas idas e vindas pelos corredores do shopping, recebi meu primeiro choque de realidade do dia. E em alta voltagem. Um vendedor de um quiosque da Editora Abril, seus trinta e poucos anos, chamou minha atenção. Percebeu que eu estava vagando – aquele andar meio abobado, sem rumo nem objetivo – e tentou me vender uma assinatura de revista. Mostrou-me um catálogo: “O senhor pode escolher. Qual sua leitura favorita?” Olhei bem para a listagem, não pude deixar de soltar uma piadinha infame: “É, Playboy não é propriamente para ler. Mas a Veja até que compro de vez em quando.”

Nem sei por que eu disse para ele que era jornalista. Mas comentei o que eu fazia. “E onde o senhor trabalha?”. “No Globo”, respondo. Notei certo entusiasmo juvenil surgir no rosto do vendedor.” Então, me diga, para qual seção o senhor escreve? Qual seu nome? Vou lá conferir depois.” Os preços eram camaradas, e ele acabou conseguindo me convencer a assinar a Veja e a Exame. Ao me despedir, ele me revelou ser estudante de Comunicação. Pergunto: “Onde você estuda?” “Na UniverCidade. Só que eu não vou trabalhar no Globo, mas sim na Veja”, disse com a certeza mais absoluta deste mundo, apontando para o catálogo.

Num momento em que penso seriamente em buscar alternativas ao jornalismo, aquela demonstração irrestrita de otimismo, confesso, feriu-me na alma. Passei as quase três horas seguintes, perambulando ou sentado, tentando encontrar onde perdi minha porfia. Desejei boa sorte ao caro colega, e segui em frente, mas com a sensação de que passei do time dos vencedores para o dos vencidos quando me abstive de crer no triunfo...

Sentimento só reforçado com o decorrer da película. “O Senhor dos Anéis” é uma história de superação. Mesmo nos momentos mais difíceis, os heróis da trama não deixam de acreditar que terão forças para vencer o nefando Sauron. Ainda que acossados no Abismo de Helm por um exército de orcs pelo menos 20 vezes mais numeroso que o seu, os humanos persistem. Têm a mesma valentia dos elfos, com a desvantagem de saberem, de antemão, que provarão do fel servido pela morte. O medo é palavra abolida do dicionário das personagens de Tolkien. Perseverar, diferentemente, é verbo que se conjuga a cada enquadramento. Mas exatamente isso que torna a história uma mera fábula.

Digo isso porque a personagem mais humana do filme, para mim, é, creiam, o ser que se denomina Gollum. Antigo depositário do Um anel, a criatura desengonçada e disforme é atormentada por uma dupla personalidade. Num filme em que o Bem e o Mal são nitidamente delimitados, num universo maniqueísta – o que, convenhamos, traz sensação de conforto ao espectador, qual seja a de saber o que esperar e de quem esperar — Gollum é o elemento mais verossímil.

Quem, que não seja uma fraude ambulante, cometerá a indignidade de afirmar nunca ter sido tentado pelo que se convencionou chamar de o Mal? A todo instante somos impelidos a abandonar nossas verdadeiras naturezas. Correr livremente pelos campos? Não pode. Tripudiar sobre aqueles que você odeia? Pouco recomendável. Mandar às favas o chato que te aborrece no trânsito, na rua, na escola, no trabalho? Falta de educação. Dar vazão à pulsão assassina que te atormenta dia e noite? Crime. Cobiçar a mulher do próximo? Pecado mortal.

Digam, amigos... A hipocrisia que grassa em nossa civilização de fato nos conduzirá à felicidade? Se a resposta for positiva, estará instaurado o império da ignorância, pois que apenas no desconhecimento haverá ambiente propício para que resida a bem-aventurança. O que por séculos têm-se nos tentando impor como sujo, ilegal, mundano, pervertido é, em suma... nós mesmos. Purinhos, esculpidos em carrara. O Homem renegou o homem. Preferiu criar a farsa. E o mais curioso: Gollum, ao lado do anão Gimli, era a personagem que mais arrancava risos da platéia. Triste ironia: riam os ignaros, em suma, deles mesmos. Ou será que terão alcançado o topo da colina, de onde enxergam, com ombros de distância, o Bem e o Mal?




quinta-feira, janeiro 02, 2003
 
Coisas que só acontecem ao Botafogo

Se ontem foi Lula quem assumiu o poder com a missão de ser o salvador da pátria (no caso, de toda uma nação), hoje Bebeto de Freitas, novo presidente do Botafogo, encarnou de vez a figura do super-herói que resgatará o clube alvinegro do abismo profundo. Chafurdando em dívidas (algo em torno de R$ 70 milhões) e rebaixado para a segunda divisão do Brasileiro, o Glorioso inicia 2003 sem muitas perspectivas de melhora. A esperança atende pelo nome de Bebeto de Freitas. Botafoguense tradicional — é sobrinho do antigo craque Heleno de Freitas —, ele carrega a insígnia da honestidade estampada na vasta folha de serviços prestados ao esporte.

Mas o caminho para voltar ao convívio dos grandes não será dos mais fáceis para o clube de General Severiano. Justamente no ano em que o Botafogo deverá terçar armas com equipes de estilo mais aguerrido, que grassam na segunda divisão, o campeonato será disputado no sistema de pontos corridos, conforme acordo assinado pelos integrantes do Clube dos 13. Por mais boa vontade que se tenha com a equipe carioca, há uma série de fatores que fazem crer na permanência do Botafogo na segunda divisão pelos próximos anos.

Em primeiro lugar, o clube deverá vencer suas próprias limitações, depois de uma temporada desastrosa. O que não é simples, vide o exemplo do Fluminense, castigado pelo descenso por três anos consecutivos. Jogadores desestimulados pelos salários atrasados, com a auto-estima combalida, atuando por um clube sem o mínimo necessário de infra-estrutura para se realizar uma boa campanha — esse é o cenário de horror com o qual o técnico Levir Culpi terá de conviver, pelo menos a princípio. Se sobreviver aos primeiros fracassos — que mui provavelmente virão — e tiver sorte, pode ser que encontre um alento no fim do túnel.

Soma-se às deficiências do Botafogo a conjuntura desfavorável e está formado o enredo propício para uma nova tragédia. Com a queda de Palmeiras e Portuguesa, o Alvinegro terá de brigar por apenas duas vagas — que lhe garantiriam a volta à elite — contra, no barato, outros nove times aspirantes ao título (nesse rol, aos paulistanos eu somaria o Jundiaí, o Ceará, o América mineiro, o Remo, além do trio de ferro de Pernambuco — Náutico, Santa Cruz e Sport). Isso sem contar alguma surpresa, que sempre surge em campeonatos nacionais.

Ou seja, o Botafogo colocará seu ainda grande prestígio em jogo num campeonato arrastado, de oito meses, no qual a regularidade fala mais alto do que a qualidade. Exporá as canelas em campos pesados, contra adversários toscos, com a torcida fungando no cangote dos seus jogadores e bafejando pressão sobre os poros dos “craques botafoguenses”. Em suma, o novo sistema só virá a prejudicar o Botafogo. Numa competição com mata-mata, o time poderia se recuperar de um eventual tropeço no começo do torneio. O elenco teria mais tranqüilidade para trabalhar, para lidar com as possíveis derrotas. E, com o tempo, estabilizar-se, brigando, no mínimo, para chegar entre os oito finalistas.

Em recente artigo no diário “Lance!”, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves defendeu o novo sistema, usando argumentos já comuns quando se trata de dar loas aos pontos corridos — módulo de disputa eminentemente europeu. Tudo balela. Os detratores dos playoffs simplesmente ignoram o fato de que o futebol, antes de ser esporte, é cultura. E o que o povo brasileiro quer é o confronto direto, a adrenalina de ver seu time do coração medindo forças, num tête-à-tête, contra um arquiinimigo.

Dizer que no campeonato por pontos corridos cada partida será uma decisão é desconhecer a faceta imediatista do brasileiro. Tomando como exemplo o Flamengo — clube de maior torcida do Brasil, segundo pesquisa da revista Placar de novembro —, no campeonato de 2002 o Rubro-negro já estaria alijado da briga pelo título na metade da contenda, se o sistema fosse o mesmo que vigorará a partir deste ano. No entanto, ganhou uma sobrevida, porque podia classificar-se entre os oito melhores, prolongando as esperanças da torcida.

Argumentar que o São Paulo foi injustiçado por ter sido a melhor equipe da primeira fase e ter caído diante do oitavo, em duas partidas, é ser reducionista. O Santos deu um baile nos “campeões da fase de classificação”, ganhando os dois jogos, incontestavelmente. Ademais, o regulamento era conhecido e reconhecido desde sempre. Venceu o melhor, ou seja, o Alvinegro praiano, dentro das regras estabelecidas.

Quando Gonçalves afirma que o campeonato por pontos corridos permitirá ao torcedor se programar, comprando ingressos com meses de antecedência, não deixa de ter razão. Porém, equivoca-se ao dizer que não importa se o preço do bilhete for mais alto, porque quem consome produtos relacionados ao futebol, em sua maioria, é a classe média. Pode até ser, mas essa mesma casta é a primeira a correr dos estádios devido à violência — fator de difícil solução, por representar a descarga de conflitos sociais, e que não pode ser negligenciado ao se explicar as razões da evasão do público do futebol.

Não se deve julgar uma experiência que sequer começou, e nem essa é minha intenção. Mas sou contra o atual modelo, mesmo que garanta, no longo prazo, algum retorno financeiro aos clubes — embora eu creia que o fim da fase eliminatória acarretará prejuízos incalculáveis. Acho-o mais ainda inoportuno por ser adotado num momento em que grandes clubes — em especial Botafogo e Palmeiras — agonizam no inferno da segunda divisão. E vou apostar: a menos que ocorra uma combinação improvável (Botafogo e Palmeiras nos dois primeiros lugares da Segundona), até 2004 teremos nova virada de mesa. Veremos, então.

quarta-feira, janeiro 01, 2003
 
Lula lá

Comovente, apoteótica a chegada de Lula ao Congresso Nacional para tomar posse. Os cavalos dos dragões da República ficaram inquietos durante quase todo o tempo, acossados pela turba delirante, que via seu Messias, finalmente, cumprindo a profecia de vir para salvá-la das mazelas sociais. Em determinado momento, Lula leva uma gravata de um popular — involuntária, haja vista que o gesto era de carinho, e não de agressão.

Pode-se dizer que nunca um presidente brasileiro assumiu o cargo com apoio popular tão tenaz, não apenas em termos numéricos, mas também no que se refere à intensidade dos sentimentos. O Brasil ama Lula. O povo brasileiro tem o direito de ter esperança. Depois de cair no conto do vigário do neoliberalismo (que não precisa ser necessariamente assassino e americano para produzir efeitos nocivos) por oito anos, agora vê no barbudo do PT o Papai Noel que lhe trará muitos presentes, tanto no Natal quanto em todos os outros dias dos próximos quatro anos.

Embora a euforia seja bonita, colorida (talvez vermelha seja o termo mais preciso), não deixa de ser preocupante a paixão que Lula desperta. Já imaginaram esse povo todo frustrado daqui a pouco tempo? E vamos convir, o novo presidente terá uma tarefa árdua pela frente. O inimigo número 1 que ele se propôs a combater, a fome, não espera, os mais de 30 milhões de barrigas famélicas roncam, mas as soluções são de longo prazo. Lula pode ser o novo namoradinho do Brasil (e com certeza não faria par com Regina Duarte), porém não fez curso de prestidigitação com David Copperfield. A insatisfação da população geralmente vem a reboque da demora na resposta aos problemas da nação. FH que o diga. Os brasileiros até que tiveram bastante paciência com ele; depois, não pouparam um presidente que, em quatro anos, não resolvera suas maiores urgências.

É de se notar, também, que a edição das imagens da TV deixou entrever, mesmo que despropositadamente, uma realidade que pode se concretizar no governo ora iniciado. Enquanto Lula ia em direção ao Congresso ao lado de seu vice, José Alencar, festejado pelo povo, logo atrás vinha o grão-vizir do novo califado, o ex-deputado José Dirceu. Leio nos jornais que o ministro chefe da Casa Civil será articulador muito mais atuante do que Pedro Parente foi na gestão de FH. Acumulará também as funções da Secretaria-Geral da Presidência, cujo titular, Luís Dulci, deverá ser mero coadjuvante no governo Lula. O que as câmeras de TV captaram foi tão-somente a caminhada, tal qual uma sombra, daquele que se candidata desde já a ser a eminência parda do mandato de Lula. Oxalá o presidente possa tomar para si as principais decisões, como o povo demonstrou desejar nas urnas.

Outro momento de destaque, mais pelo tom patético que pela importância da declaração, foi o breve discurso do deputado Severino Cavalcanti (PPB). Provando que a vitória tem muitos pais — ao contrário da derrota, que é órfã — Cavalcanti traçou um paralelo entre as trajetórias dele e de Lula, após ler o termo de posse. “Vim de Pernambuco num pau-de-arara. Eu e Lula somos do agreste nordestino, e isso é uma coincidência”, disse o parlamentar, esquecendo-se de que, durante a campanha, o até ontem governista PPB não prestou solidariedade a Lula.

Se o futuro ainda é incerto, o presente pelo menos deu mostras de que o Brasil amadureceu sua democracia. O presidente FHC, apesar dos defeitos, entregou com dignidade a faixa ao seu sucessor. Um alento para a população brasileira. A presença de chefes de estado da América Latina nos lembra que a situação em terras vizinhas transforma o atual estado de coisas brasileiro num paraíso.

Acossado por uma greve geral, cujo maior expoente é a Petroleo de Venezuela (PDVSA), o presidente venezuelano, Hugo Chávez, se vê abandonado pela maior parte do eleitorado que o colocou no Palácio de Miraflores. Não deverá chegar ao fim do mandato, em 2006; a oposição pede a sua cabeça já agora neste ano. O país está à beira do caos: população empobrecida e economia combalida. A democracia venezuelana agoniza.

A da Argentina, eu diria, já agonizou. Não bastassem os índices de desemprego alarmantes, a economia esfacelada, o corralito e as mortes de criança pela fome nas províncias mais pobres, os platinos são obrigados a ser conduzidos por um dirigente que rejeitaram nas urnas. Não custa lembrar: em 2000, o peronista Eduardo Duhalde perdeu a eleição para Fernando de La Rúa, que, em fins de 2001 mostrou ser politicamente tísico. Foi defenestrado e, após dois outros presidentes assumirem a Casa Rosada, Duhalde foi convocado para apagar o incêndio. Vai, aos poucos, controlando os focos, mas sua simples presença no mais alto posto da República Argentina mostra a fragilidade do processo democrático naquele país. Veremos agora, em 2003, quando haverá nova eleição no país vizinho, se a vontade do povo voltará a prevalecer.

Já sobre a Cuba de Fidel Castro não há o que se comentar em termos de democracia. Mais de 40 anos sob o comando do mesmo homem, que já anunciou seu sucessor, o irmão Raúl Castro. Muito edificante o exemplo de antiamericanismo dado ao mundo pela ilha, assim como os bem-sucedidos programas de saúde e educação. No entanto, uma população que não pode se manifestar por meio do voto durante mais de 40 anos não deve estar nada satisfeita. E a missão primeira de um governante, e que Lula já deve ter decorado, é fazer seu povo feliz. (O mais preocupante: José Dirceu é afilhado de Fidel, desde os tempos em que esteve exilado em Cuba e recebeu treinamento militar; para refletir).

terça-feira, dezembro 31, 2002
 
Reflexões de fim de ano...

O ano que hoje se encerra com certeza foi pródigo em cenas memoráveis. Não só as que a televisão me trouxe, mas as que presenciei. Sem querer fazer deste texto um inventário da pieguice, vou lhes dizer que o ponto crítico de 2002 para mim foi o momento crucial em que um trabalho de sete meses (o período de estágio no Globo) foi resumido numa simples sentença: “Fica!” (no meu caso e no de mais alguns colegas afortunados, e também competentes, decerto) ou “Não fica!” (dirigido a amigos que, embora igualmente hábeis como jornalistas, acabaram liberados).

Para quem as particularidades do processo de seleção do jornal não são tão familiares, explico: as regras do jogo estavam claras desde o início; após algumas etapas nas quais foram avaliadas centenas de candidatos, 17 universitários chegaram ao que, para muitos, é o sonho de uma vida (ou de uma carreira, como queiram), qual seja o de ingressar num dos maiores jornais do país — um selo de qualidade garantido. Dos 17 estagiários, no entanto, apenas oito tornar-se-iam trainees, em fins de setembro. Depois de intensa avaliação, o anúncio seria feito para todos concomitantemente. Reunidos numa sala, ouvimos sair da boca de nossa coordenadora de estágio as palavras que definiriam nossos futuros pelos próximos meses.

Embora a vida não se resuma ao Globo (ainda bem!), é certo que, ao fim de uma convivência dessa natureza (ao mesmo tempo uma competição, e ninguém em sã consciência investe seu tempo com o intuito de perder) a revelação dos agraciados deixa marcas. Tanto para os que ficam quanto para quem sai. E só fui realmente perceber isso no momento fatídico.

Outro dia li uma crônica do Luis Fernando Veríssimo (para variar, no Globo), na qual ele propunha um exercício ficcional (como as HQs da Marvel soíam fazer em meados da década de 80 e no início da de 90): o que aconteceria se a ciência pudesse nos confirmar a iminência de um choque de um meteoro gigante contra a Terra? A proximidade da destruição pelo monólito nos faria mais fraternos, por perceber que todas as diferenças são meros detalhes diante do fim; ou, ao contrário, adotaríamos postura desbragada, livre de quaisquer limites impostos pela moral, que tanto nos afastam da verdadeira natureza humana? Veríssimo não ofereceu resposta definitiva, mas apresentou ainda uma alegoria perturbadora: a alguns poucos, se fosse dado o privilégio de escapar ao massacre do astro numa nave espacial, quem seria selecionado para embarcar no bólido?

No momento em que lia a crônica, pensei logo nos meus pais. Sejamos pragmáticos: não seria racional que dois seres cuja comunhão gerou um outro tivessem a prerrogativa de embarcar na nave em detrimento deste. Mas, por outro lado, pergunto-vos: que estado de espírito me guiaria a partir de então, se eu realmente viajasse sem olhar para trás, na direção de meus progenitores?

Citei o belíssimo texto (chega a ser pleonasmo tecer tal elogio a uma crônica do Veríssimo) para estabelecer um paralelo com o que senti naquele dia do anúncio, quando eu, feliz por ter vencido mais uma etapa da minha carreira, rachei por dentro ao ver alguns amigos (uns mais queridos que os outros, é verdade) com a face abatida pela tristeza.

Subir na nave do programa de trainees do Globo foi, acreditem, bastante doloroso. Mas hoje, decorridos alguns meses, fico feliz ao receber as notícias de que os colegas não aproveitados, a quem nunca faltou vontade de vencer, vão, aos poucos, encontrando seus caminhos. Melhor assim.

Não mudei minha opinião desfavorável àquele processo (que desperdiça talentos escolhidos com rigoroso critério) nem mesmo recentemente, ao ler um texto de Nietzsche (o pessoal de São Paulo deve se lembrar que eu tinha um tributo a pagar à professora de Filosofia). Diz o pensador, em seu “O Anticristo – Maldição do Cristianismo”: “O que é bom? Tudo que eleve no homem o sentimento de potência, a vontade de potência, a própria potência. O que é ruim? Tudo que advém da fraqueza. O que é felicidade? O sentimento de que a potência cresce, de que uma barreira é superada. Não contentamento, porém mais potência; não paz em absoluto, porém guerra; não virtude, mas habilidade (...). Os débeis e os disformes devem sucumbir: primeira regra do nosso amor ao homem. E para isso ainda devemos ajudá-los. O que é mais prejudicial do que qualquer vício? A compaixão ativa para com todos os deficientes e fracos; o cristianismo.”

Transportada para o calor de qualquer disputa, a idéia de Nietzsche nos faz não ter respeito aos que, por obra do momento, perdem a refrega. Está errado o filósofo (relevem minha pretensão): não sou cristão — ao contrário, não rezo por cartilha alguma —, porém faria o adendo de que, havendo sentimentos, nenhuma compaixão é demonstração de fraqueza (pois aqueles de quem gostamos são justamente a fonte maior de nossa força). Essa a melhor lição que levo de 2002. E que 2003 — embora em última análise marque apenas a troca do calendário velho pelo novo — possa nos trazer mais felicidade (diferente, obviamente, da nietzschiana). Grande abraço.

domingo, dezembro 29, 2002
 
Duas mortes num sábado pré-réveillon no Rio de Janeiro

Olhos esbugalhados, voz de trovão (dá até medo, lembra os coronéis da minha infância), a mãe grita com a filha: “Levanta, Vanessa... Você não disse que queria falar com fulano (triste senilidade precoce, olvidei-me do nome do fulano)? Ele está aqui, levanta”. O mais corajoso dos servos obedeceria a tão grave ordem, mas o corpo de Vanessa permanece inerte dentro do esquife. Amparada por dezenas de amigos, a mãe insiste. A garganta já quase falha, os olhos não têm mais água salgada para verter. Só restou a expressão de perplexidade, depois de a revolta transbordar.

Vanessa, creiam, tinha apenas 18 anos. Poderia ser até mais uma da Silva, quem sabe — andam tão em alta, mas ainda são tantos, e tão poucos serão agraciados com o púlpito do sucesso, que deixo o sobrenome para os jornais do dia seguinte. Prestes a completar nove ciclos menstruais interrompidos, Vanessa não provou do gosto da tez do fruto de seu ventre... Os projetis cuspidos pelas armas de policiais e bandidos, (tão insipientes, as balas, claro!) não distinguem entre o Bem e o Mal. São os tentáculos da Morte enleando os inocentes. Nas vielas do Complexo do Alemão, onde Vanessa, pobre moça, teimou em nascer e viver, a sorte não costuma comparecer ao fogo cruzado (Tim Lopes, de triste memória, que o diga).

Seu rebento, que infeliz!, nem teimar pôde. A bala que rasgou o abdômen de sua progenitora abriu-lhe as portas do Vale de Lágrimas, tal qual um zíper descortinando as intimidades de um homem cuja bexiga ameaça explodir de intensão ante um mictório. Arremessado pelo acaso, o bebê se espatifou contra o chão, um dia antes de a vergonha de viver numa cidade de deus entregue aos homens solapar o sábado vespertino de um jovem jornalista.

No caminho pavimentando pela pobreza, o itinerário de Vanessa levou ao Cemitério de Inhaúma. “Foi a polícia que disparou”, diz o cunhado da vítima. Vanessa já não se importa com a identidade dos algozes. Dorme o sono eterno dos justos. A sogra bradava, indignada: “Esses filhas da puta vão me pagar. Se o meu filho se suicidar, como vem ameaçando, eles vão se ver comigo”. Palavras jogadas ao acaso, que a resignação vindoura tratará de calar.

O mesmo conformismo que fazia um conhecido da família comentar: “Isso é comum, já mataram meu irmão... Depois, dizem que foi o pessoal do movimento”. Ao estoicismo do popular, contrapunha-se o delírio quase religioso da mãe de Vanessa. Ela só saiu do transe ao ver meu companheiro de labuta, registrando os momentos de dor da família. “Quem é você?”, perguntou. “Sou jornalista”, disse o fotógrafo. “Pois eu preciso dizer que ELES mataram minha filha. Processa ELES.” Depois, seguiu seu triste périplo. Vanessa jaz num cemitério do subúrbio, mas a injustiça permanece insepulta.

Num universo psicodelicamente maniqueísta, uma vez que o Bem foi abolido, e o Mal se encontra nas duas extremidades do espectro (polícia bandida – Mal com camisa x bandidos milicianos – Mal sem camisa), julguei e dei meu veredicto desfavorável aos homens da lei. Mas o dia dedicado a Saturno ainda reservaria mais um choque de realidade a quem ainda não entendeu que a violência é companheira constante nas ruas do Rio.

Barriga mutilada por dois tiros de fuzil — costurada pela hábil agulha do cirurgião (e não foram poucas, mas 26 vezes em que ele teve o corpo devassado pelos médicos) — Paulo Henrique também morreu. Na verdade, ele não sabe disso. Nem eu ainda, quando o encontro. Ele fala. Exara conceitos sobre a corporação — ferido em combate, valoroso guerreiro da selva urbana, teve dificuldades para se aposentar por invalidez, este o motivo de nosso encontro. Mas sabe a sensação de que o seu interlocutor já não mais vive, mas sim sobrevive? Pois bem, passei a tê-la com o decorrer do colóquio.

Ferido em 1998 durante um confronto, o então sargento Paulo Henrique passou 50 dias em coma. Voltou ao convívio dos vivos, mas o reingresso lhe custou caro. O preço? Um rim, 85% do colo intestinal, 30% do intestino delgado... Juros altíssimos, que mostram como a matemática da violência carioca fez o policial, noves fora o sofrimento em mesas cirúrgicas, ter de substituir o estômago pelo intestino delgado. Seu organismo já não é capaz de absorver gorduras, açúcares, enfim, massa corporal ele só subtrai, não soma. Numa dieta em que o martírio se multiplica, numa escala geometricamente decrescente, ele passou de cerca de 80 quilos para 40, num período de quatro anos. O resultado da divisão por dois, dentro de pouco tempo, pode ser a morte, conforme ele próprio admite: “Quem sabe eu viva mais cinco, seis anos?”

Talvez doa mais em Paulo Henrique ver seu filho pequeno, menos de quatro anos, possivelmente órfão mais cedo do que o soldado poderia imaginar quando de seu nascimento. A crueza da corporação à qual serviu frente ao seu infortúnio ele deixa para nós, os pró-cônsules na República das Letras, como diria Balzac, escancaramos.

Paulo Henrique mostra as fotos de seu casamento, já se locomovendo numa cadeira de rodas. Forte, sorriso no rosto, noiva bonita... Tudo para (ainda) ser feliz. Exceto um detalhe: ele nasceu e vive (até quando?) no Rio. Olhando para as imagens de um passado não tão distante e comparando com a figura moribunda de um humanóide de apenas 37 anos à minha frente, não pude deixar de pensar que Paulo Henrique (ainda que eu lamentasse) foi o segundo cadáver que visitei naquele sábado pré-réveillon.

 
Drácula escarlate (o título só é passível de cognição para os fãs de Homem-Aranha)

Vamos combinar: essa tal seita raeliana é a maior confraria de comediantes surgida desde a turma do Chaves. Não satisfeita em anunciar um improvável primeiro clone de ser humano (uma menina) e prever para daqui a um mês o nascimento de mais quatro, a química Brigitte Boisselier, da Clonaid — braço biotecnológico do grupo — fez uma revelação mais surpreendente: Drácula teria procurado o séquito de Rael para ser clonado. O Príncipe das Trevas, segundo a cientista, moraria em Berlim e estaria ansioso para participar da experiência (e eu que pensei que Drácula tivesse sido eliminado por Galileu em “O Beijo do Vampiro”). Ora, caros amigos, vamos destrinchar esse besteirol por partes, parafraseando Jason (da épica série Sexta-feira 13, para os incautos)...

Primeiramente, o pioneiro da clonagem humana é, como todos brasileiros sabemos, o doutor Albieri. Brincadeiras à parte, fora ele, ninguém, aqui ou alhures, conseguiu clonar seres humanos. Pelo menos, até prova em contrário. Não sei se realmente alguém precisa de ajuda para produzir clones (uma autêntica Clonaid), mas os raelianos decerto necessitam de auxílio para (tentar) escapar da esquizofrenia.

Aliás, para quem esteve boiando por esses dias, Rael é o nome artístico do maluquete que fundou a tal seita. Trata-se, na verdade, de um ex-jornalista esportivo e ex-piloto de corridas, o francês Claude Virilhon. Talvez abalado pela longa estiagem de ídolos no futebol francês entre Just Fontaine e Michel Platini, em 1973 Virilhon abandonou o mundo dos esportes. Naquele ano, ele inventou ter tido um contato imediato do terceiro grau, durante o qual teria recebido uma importante missão de visitantes de outros planetas: ser uma espécie de guru da raça humana. Desde então, dedica-se a ludibriar otários, dizendo chamar-se Rael e ser uma espécie de amálgama genético (ele também seria um clone) de Jesus Cristo, Maomé e um ET supremo, cuja identidade não foi revelada. O número de seguidores de Rael em todo o mundo já ultrapassa a casa dos 50 mil.

Fato é que a mui provável mentira relativa aos clones até poderia se enquadrar no benefício da dúvida: realmente, não deve estar longe o dia em que os cientistas produzirão cópias humanas em série, tal qual uma máquina de xerox duplica pilhas de papéis. O conhecimento humano avança nessa direção. Mas a tentativa de envolver na intrujice o vampiro imortalizado por Bram Stoker fez cair por terra a reputação (!!) da Clonaid. E explico o porquê.

Vamos considerar que Drácula realmente exista, por redução ao absurdo (como diria um saudoso professor de matemática superior da época em que, mui ingenuamente, eu pensava em me preparar para o concurso do Instituto Militar de Engenharia). Ora, ele seria, segundo relatos que nos chegam de tempos quase imemoriais, o famigerado Vlad Tepes, guerreiro romeno de grande reputação no século XV. Recorro ao Guia dos Curiosos na internet (www.guiadoscuriosos.com.br) para descobrir que “Vlad Tepes (1431-1477) nasceu na Transilvânia e governou outra região da Romênia, a Valáquia, entre 1448 e 1476. Virou herói nacional na luta contra os turcos. Seu pai, também chamado Vlad, fora nomeado cavaleiro da Ordem do Dragão. Dragão em romeno é Dracul, a mesma palavra para ‘demônio’. O sufixo ‘a’ significa ‘filho’ em romeno. Tepes, filho de Dracul, virou Dracula. Tepes era conhecido também como ‘o empalador’. Na empalação, o condenado era espetado, pelo ânus ou pelo umbigo, em uma estaca fincada no chão (hum, isso devia doer — o comentário é meu mesmo). (...) Morto em combate pelos turcos, em 1477, Vlad Tepes teve a cabeça cortada. O corpo foi enterrado num monastério, construído em 1519. Fica no meio de um lado de Snagov, de difícil acesso. O túmulo de Vlad Tepes está localizado em frente ao altar. Há quem diga que os ossos teriam sido roubados dali”.

Como vemos, Vlad Tepes morreu... Mas as lendas sobre vampiros pulularam desde então, já que sobre ele recaía a fama de bebedor de sangue. Continuando com nosso exercício reflexivo, digamos que ele tenha se tornado imortal, assim como o seria o legendário alquimista Conde de Saint-Germain, que teria sido visto na Europa nos séculos XVIII e XIX, sempre com a mesma feição jovial. Consideremos também que, uma vez que Vlad era um vampiro, guardaria as características próprias a esses seres das trevas: ou seja, seria tão-somente um morto-vivo, desprovido de quaisquer funções vitais. Conclui-se, de tal modo, ser impossível clonar Drácula. Por quê? Simples: até onde sei (e me corrijam se estiver errado) só se podem clonar estruturas vivas (células, tecidos etc.), razão pela qual ainda não puseram em prática um plano para duplicar personalidades já falecidas. Agora, digam-me: como clonar um indivíduo cujo corpo, em princípio, estaria todo necrosado?


 
É isso, caros amigos. As cortinas do fantástico mundo de Bob mais uma vez se abrem para apresentar a vocês um espetáculo recheado de verve e reflexão. Depois de longo e tenebroso inverno, o blog ressuscita. Espero em breve superar a ignorância e descobrir como incluo um espaço para vocês comentarem os textos. No mais, desejo um Feliz 2003 a todos, com muita felicidade, sucesso e sexo.

Jorge Eduardo Machado



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