o fantástico mundo de bob
sábado, julho 05, 2003
 
Sozinho na escuridão, você foge desesperado do monstro. Mas o que terá acontecido? Você não se lembra. Então, corra. Corra mais rápido. Quem sabe você não se livre desse mal antes de descobrir do que, afinal, você tem medo?

(Curtam mais esse breve conto que lhes é ofertado por Bob).
 
Medo

Copyright by Jorge Eduardo Machado

Corria como se fosse um velocista, mas, ainda que cem pernas tivesse, não fugiria à sensação de pavor que o dominava. A cem metros de casa, nos estertores da noite, só pensava em escapar do monstro que o atacara. Naquele beco escuro, nenhuma viv’alma poderia acudi-lo. Banhado a sangue, o punhal em sua mão direita denunciava a violência do confronto que se dera havia poucos segundos.

De como tudo ocorrera não se lembrava. O choque apagara da memória o momento, deixando-lhe de herança maldita o turbilhão de imagens desconexas a confundir sua mente. Será que havia golpeado o maldito? Ele, ao menos, não estava ferido. Não se recordava de nada. Sabia apenas que devia fugir. Era como se seu instinto, personificado na figura de um provecto conselheiro, sussurrasse ao seu ouvido: “Escape. Corra mais rápido. Ou ele virá lhe pegar”.

Em frente ao sobrado onde vivia sozinho, buscou coragem para se virar. Por um instante, pensou ter visto a sombra do algoz, vindo célere em sua direção. Um engano. Um segundo depois, no entanto, uma lata de lixo de metal caiu ao seu lado, como se tivesse sido empurrada. O barulho lhe fez lembrar um gongo. As batidas de seu coração se descompassaram mais ainda, dando a sensação de que este lhe saltaria pela boca. Mas logo se revelaram os responsáveis, dois ratos saídos do esgoto, que — pressentiu — estariam ali como arautos da morte.

Já possuído pelo pânico, girou rapidamente a chave. Abriu a porta num rompante. Trancou-a com rapidez. Ofegante, subiu a escada de lado. Não queria deixar a retaguarda vulnerável, mesmo que atrás de si não houvesse ninguém. Menosprezar as habilidades do monstro poderia ser fatal. O ranger da madeira dos degraus aumentava a sensação de medo, a exemplo do que sói acontecer em casas supostamente mal assombradas.

Certificou-se de que estava vazio o apartamento — às escuras para não chamar a atenção do perseguidor. Caminhou vagarosamente até o banheiro, esculpindo cada passo na escuridão. Trancou a porta. Acendeu a luz. Pôs o punhal ensangüentado ao lado da pia. Lavou as mãos, tingidas de vermelho, e o rosto. Fitou-se no espelho, invadindo o próprio olhar.

Tal qual um alarme da alma, as sirenes dos carros de polícia lá fora o fizeram retornar a si. Só então veio à lembrança a imagem de Clara em seus braços, aquela tez angelical refletindo a vida a se esvair. E uma vez mais o austero conselheiro imaginário pareceu lhe falar, agora para ensinar que o difícil é escapar ao mal quando ele está dentro de você.
 
Caros, mudei novamente a template do blog... Pelo menos consegui voltar a acessá-lo.Infelizmente, aquela figura que ilustrava o ambiente se foi nessa reengenharia. Deve ter partido para novo desafio, consciente de ter feito seu melhor papel neste espaço.
 
A pergunta que não quer calar: por que diabos não estou conseguindo acessar meu blog de casa?
sexta-feira, julho 04, 2003
 
Dúvidas:

Você já parou para pensar o que estava acontecendo há 100 mil anos exatamente neste local em que você está agora?

E já imaginou que, daqui a 150 anos, mui provavelmente todas as pessoas vivas sobre a face da Terra hoje estarão mortas?

Pois não pense nem imagine. É inquietante.

 
De volta para casa

Sabem o que mais me dava medo ao pensar na hipótese de largar o Extra? A possibilidade de, um segundo após o forfait, o mundo desabar sobre a minha cabeça, sob a forma de um arrependimento atroz. Pois bem, meus caros, informo em primeira mão: desse mal eu não morro. Voltei nesta quinta-feira à Folha Dirigida, onde eu havia iniciado minha carreira jornalística em 2000. E retornei de uma maneira que não deixa dúvidas quanto ao sepultamento da minha vaidade (e das minhas veleidades). Os mais antigos jornalistas daquela casa, que já me conheciam, até sabiam da minha trajetória, desde que eu segui para o Estadão, em São Paulo, até os últimos momentos na Infoglobo. A quem me pergunta o que houve nesse período, respondo sem ocultar nenhum naco de verdade. Mas fato é que cheguei à redação como um anônimo (que, em suma, sou mesmo), sem causar nenhum alarde nem demonstrar certa dose de estrelismo. Melhor assim.

Para ser sincero, além de estar de bem comigo mesmo, o que mais me chamou a atenção nessa volta foi a saudade da primeira passagem pela FD. Olhei para os lados e, se ainda vi rostos conhecidos (obviamente mesclados a outros completamente estranhos), senti falta de velhos companheiros. O corredor do cafezinho já não é mais o point da redação, como costumava ser quando necessitávamos de uma válvula de escape ao tédio que as matérias sobre concursos proporcionam como nenhuma outra. Os tempos são outros. Os focas também. Nem a galera da cerveja existe mais (mas esse núcleo, prometo, vou batalhar para reativar; ao menos enquanto não começarem as aulas da faculdade). O pessoal da Educação agora fica no quarto andar, que uma escada incrustada nos fundos da redação do terceiro pavimento transformou numa espécie de mezanino metido a besta. E estão prontos para ouvir uma boa? Até “o homem” está mais dócil. Os esporros homéricos estão cada vez mais intermitentes. Acho que chegou a época da colheita, parafraseando o ilustre mandatário da nação.

Enfim, a recepção foi boa. Saudades da Infoglobo? De alguns amigos, sim. Mas ainda não deu pra sentir em toda sua intensidade. Só sei que, agora, tenho a certeza de que optei pelo meu melhor caminho. E que venham os novos desafios.
terça-feira, julho 01, 2003
 
Nos tempos da alvorada

Orgulho. Meus caros, o que é o orgulho senão o alimento da insensatez? Houve um tempo em que eu, ainda engatinhando no jornalismo, tive alguém a me guiar. Reconheço que Jorge Eduardo Machado não teria existido sem a ação de um mentor. Dele afastei-me por motivos fúteis, mas que, na época, para mim eram graves. De toda forma fiz esse intróito para lhes apresentar o material que vem a seguir. Trata-se de um esboço de ajuda para um livro que contaria a história do Colégio Militar do Rio de Janeiro, no ano de 2001. Interrompido como outros sonhos que eu e meu irmão de farda sonhamos juntos. Não sei o que aconteceu com ele. Nem tenho mais coragem de saber. Maldito orgulho. (Os posts abaixo estão em ordem decrescente).

 
Meninos eu vi 3

Os olhos de criança contemplavam, maravilhados, aquele quadro gigantesco. Diria mesmo de proporções rabelaisianas. Aos onze anos de idade, tudo parece adquirir contornos maiores do que a realidade supõe. Naquele caso, o exagero era pertinente. Onze fotos guardadas para a posteridade. Onze ex-alunos no salão da Casa Rosa. Refiro-me ao Pantheon. Naquele momento, assaltou-me um pensamento pretensioso. Seria eu o 12º componente daquele panteão?

De fato, havia espaço para doze fotos, numa simetria perfeita. Faltava uma. Essa incômoda ausência suscitava a propagação de uma lenda, de que o 12º Pantheon seria uma ovelha desgarrada, um ex-aluno maldito. Diziam que se tratava de Luis Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, egresso do CMRJ em 1915 para comandar a ofensiva vermelha em território brasileiro durante boa parte do século XX. Teriam retirado sua foto do Pantheon, diziam os arautos da falácia, por razões políticas. É certo que o nome de Prestes tornou-se um palavrão dentro do CMRJ. Nem mesmo consta da lista oficial de ex-alunos famosos daquela Casa. Em sete anos que lá estive, nunca soube que ele foi meu companheiro de farda. A tal lenda a que me refiro só chegou aos meus ouvidos quando já desfrutava do status de ex-aluno.

Entretanto, é apenas uma fábula. Prestes foi o segundo melhor aluno de sua turma, alcançando a insígnia de major-aluno. Dirão os mais jovens que o segundo aluno de uma turma é o tenente-coronel-aluno. Este, todavia, era o primeiro dentre todos por aqueles tempos. Fato é que os anos seguintes trataram de comprovar que aquele aluno da 5ª série de 1991 (eu, no caso) não conseguiria nem sequer arranhar a moldura do Pantheon, o quadro no qual só entram os alunos que logram, durante sete anos, médias altíssimas. Tarefa tão difícil que, em pouco mais de 100 anos, somente onze companheiros conseguiram transpô-la. O último, na distante década de 70.

A primeira vez que me deparei com o Pantheon foi exatamente em minha primeira passagem pela Casa Rosa. Eu e meus companheiros fomos ciceroneados pelo Coronel Fonseca (não me lembro bem do Cel. Fonseca, só me recordo que foi comandante do CM em 1990/91; depois, sua imagem, até mesmo seu rosto, apagou-se de minha memória; prova de que o primeiro comandante a gente sempre esquece).

Daquele ano inocente, aliás, guardo não muitas recordações. Com efeito, talvez só tenha ocorrido algo de relevante na história do CMRJ em 1991. Mas isso só notei muito tempo depois. Estudávamos todos, da 5ª série ao 3º ano do segundo grau, na parte da manhã (das 6h30 ao meio-dia). Houve uma tentativa, frustrada, diga-se de passagem, de transferir o turno da 5ª série para um horário alternativo, em torno das 11h às 17h, se não me engano. Embora malograda, a idéia voltaria com maior intensidade meses depois. Nunca estudei na parte da tarde no CMRJ. Mas esse fato, decorrente de motivos mais pragmáticos do que se possa imaginar, era uma forma de adaptação do Colégio aos novos tempos, que continua refletindo ainda hoje, na abertura do século XXI, na qualidade do ensino do Imperial Colégio Militar do Rio de Janeiro.

...

Embora possamos afirmar que o nível intelectual dos alunos do CM venha decaindo ao longo das décadas (os mais saudosistas e conservadores defenderão essa tese, realmente discutível, com unhas e dentes, até o final do universo), surgiu, no apagar das luzes do milênio que se encerrou, mais precisamente em 1998, um redentor. O Pantheon já não carece de mais componentes, sua perfeição já está resguardada. A maior média da história do Colégio pertence a Rodrigo Molinaro Zacharias, o Pantheon dos Pantheons. Apesar de virtuose, um poço de humildade, que escolheu cursar a faculdade de direito na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).
 
Meninos eu vi 2

Que estranhos caminhos nos levam a escolher profissões que nada têm a ver com nosso perfil? Estamos tão tomados por preconceitos (aqui entendido como o que a palavra quer dizer realmente, um pré-conceito, conceito prévio), imagens estereotipadas, que não imaginamos determinadas situações. Do major Fernando Borges, jamais se diria tratar-se de um militar. Poderia ser tudo. Médico, advogado, engenheiro, simplesmente um bon vivant... De fato, parece que estudava Direito. Mas era militar. Aqueles que o vissem na rua, à paisana, com certeza não adivinhariam (se eu fosse um deles, apostaria que ele era um bon vivant; tinha jeito, era uma pessoa descontraída, diria até mesmo desligada). Difícil era ver o major Fernando Borges, comandante da Companhia Especial (CiaEsp) em 1997, exasperado.

O major Fernando era irmão de outro major (ainda é, porque está vivo), o major Arthur, comandante do internato naquela época, que antes havia passado pelo comando da Seção de Educação Física. Em relação à CiaEsp, os mais antigos não encontrarão referências em suas memórias. Era tão-somente uma adaptação aos novos tempos do ensino de mercado. Como ficava mais ou menos claro que a maioria dos que chegassem ao terceiro ano do segundo grau (opa, ensino médio) não seguiria carreira militar, era de bom alvitre que o colégio preparasse seus alunos para o vestibular, sob pena de ver exaurido seu corpo discente, por conta da diáspora de jovens ávidos por uma preparação mais adequada em direção a outros educandários.

Separou-se, então, o terceiro ano do resto do segundo grau, que continuou organizado em armas: Esquadrão de Cavalaria, Infantaria, Bateria de Artilharia e, desde 1982, Companhia de Comunicações. Se as informações mais recentes não estiverem desencontradas, a CiaEsp cessou de existir. Resta saber como o CMRJ se adequará à realidade do vestibular (suas colocações no ranking de escolas vêm sendo bastante destacadas) sem esse mecanismo, que se revelou eficiente, em certa medida.

Mas, em um ano que estive na CiaEsp, só vi o major Fernando Borges alterar-se uma vez. Quando tivemos que escolher o paraninfo de nossa turma, realizou-se uma votação, dentro dos ditames democráticos. Só havia uma regra: deveríamos escolher algum vulto histórico (ou seja, a pessoa já deveria estar morta para ser homenageada; nunca entendi bem esses critérios; só os mortos merecem homenagem?). De fato, as turmas votaram em pessoas já falecidas. Só que, tomadas por um impulso juvenil, fizeram do pleito motivo de galhofa. Não foram raros os votos em Garrincha, Ayrton Senna, Mussum e outros tantos. Até Pelé foi votado (talvez por que não se possa esperar a morte de Pelé para homenageá-lo; seus feitos foram tão incontestáveis que o tornaram imortal).

Eu, por meu turno, também resolvi recorrer à pilhéria para manifestar-me. Nunca havia tido uma consciência política forte, até então. Mas já havia ouvido falar, aqui e acolá, de um certo capitão Carlos Lamarca. Não sabia bem quem era, o que tinha feito, mas pressentia que a pronúncia de seu nome era uma heresia, um anátema dentro dos meios castrenses. Uma figura maldita, perfeita para que eu brincasse com a escolha (séria) do paraninfo da turma de 1997. Recorri a mais dois ou três colegas, propus o nome de Lamarca, e assinamos, fazendo nossa escolha (inocentemente).

O dia seguinte foi, com efeito, o mais difícil vivido por mim em sete anos de CMRJ. Naquele dia, descobri quem era Carlos Lamarca, o que tinha feito. Na formatura matinal, vi o major Fernando Borges mudar de cor (ele era muito branco; mas estava vermelho). Não lhe importavam os garrinchas, os sennas... A piada mortal tinha sido Lamarca. Fez discurso demorado, explicando o quão facínora era o ex-capitão. Temi pela minha situação de aluno. Nos estertores, prestes a sair do colégio, cri que seria expulso. Vã preocupação. Nada me aconteceu.

Mas uma lição ficou daquela manhã. Certas feridas não cicatrizam jamais. Percebi também o que fazia do major Fernando um militar. Se Lamarca foi herói ou bandido, reconheço não ter como julgar. Mas que é odiado, até hoje, por cada um que veste aquela farda verde (talvez eu esteja generalizando), disso não tenho dúvida.

...

Em relação à escolha do paraninfo, já escrevi que optamos pelo general Pinheiro, então recém-falecido. Mas não sem antes entrarmos em nova polêmica. Em princípios de 1997, partiu para outro plano o ex-presidente do Brasil, e ex-aluno do CM, Ernesto Geisel. Como não tivéssemos competência para decidir por nós mesmos, tentaram impor-nos a homenagem ao general. Tomados por reação inesperada, todos rejeitamos. Por quê? Não saberia explicar. Mas posso supor várias razões. Prova de que a juventude, por mais alienada que pareça nos últimos tempos, jamais será completamente néscia. Certos valores persistem com maior veemência nos corações puros, juvenis.
 
Meninos eu vi

Quando entramos no salão principal da Casa Rosa, eu e meus contemporâneos, todos nós alunos do primeiro ano do segundo grau (na minha época ainda se chamava segundo grau; hoje, já sei que estou ficando velho, a nomenclatura mudou para ensino médio), mal sabíamos que estávamos participando de um evento histórico. Também seria injusto cobrar de jovens de 15 anos (essa era a média de idade) consciência própria da idade madura. Corria o ano de 1995, e a reunião para o qual fomos convidados, aliás, especialmente convidados, era o tão aparentemente misterioso Conselho de Classe.

Quem sabia o que acontecia num Conselho de Classe? Ninguém. Alguém já havia estado em algum Conselho de Classe? Ninguém também. Parecia-nos um conclave secreto, feito em lugar desconhecido, profano, onde era decidido nosso dia-a-dia de alunos do Colégio Militar, e do qual não poderíamos, nem deveríamos, tomar parte. Interessante como certos conceitos, mesmo sem a mínima dose de fundamento, tornam-se verdades absolutas. Aluno não tem nada o que fazer em Conselho de Classe. E não se fala mais nisso.

Não se falava. Naquele ano, entretanto, algo mudou. E, num exemplo de que alguns homens nascem não para corroborar o que já está estabelecido e conformar-se com dogmas infundados, o então coronel José Carlos Clodevila Pinheiro (Cel. Pinheiro), comandante do CMRJ, fez história. Convidou os alunos ao Conselho de Classe. Bem verdade que nem todos poderíamos estar lá. Mas nem tampouco todos nós brasileiros estamos no Congresso Nacional para nos representarmos. Foram eleitos (democraticamente) representantes de turma. Cada classe tinha o seu. Minto, cada classe tinha dois alunos escolhidos para verbalizar a opinião da coletividade. Os critérios que guiaram essa escolha foram os mais diversos, e não cabe aqui analisá-los. Afinal, quem será capaz de determinar que características formam ou não um líder? Um mero exercício de pretensão, que não engendra resultados práticos.

Entre as regras do Conselho, uma chamava particular atenção, e se transformou, por aqueles tempos, no ponto mais polêmico da decisão do comandante. Os alunos tinham liberdade para conceituar os professores. Poderiam elogiá-los (esse não era o problema, obviamente) como reclamar de suas atuações (aqui se localizava o cerne da questão; quantos professores teriam humildade suficiente para ter seu trabalho questionado? Imaginem um jogador de futebol que é instado a abandonar a prática do ofício bretão por não ter habilidade suficiente para tanto).

A crítica se dava da seguinte forma: primeiramente, nós alunos apresentávamos, quando era o caso, já que nenhuma turma era obrigada a elogiar ou falar mal de nenhum mestre, nossas críticas sobre o corpo docente, em reunião privada com o comandante e outros oficiais. Posteriormente, em encontro exclusivo com os mestres, o comandante tentava chegar às conclusões de a performance de cada um estar sendo questionada.

Isso, como era de se esperar, não causou pouca confusão. Houve até o caso de um professor de Biologia, o tenente Nicácio (na minha opinião, um professor de qualidade), que mudou da água para o vinho depois de ser criticado por alunos da arma de Infantaria. Antes, era brincalhão, altivo, bem-humorado. Depois, transfigurou-se num sujeito pragmático, diria até burocrático. Já que o questionavam, só estaria lá para cumprir seu papel: dar aula, e nada mais. Foi-se o tenente Nicácio amigo dos alunos. Entrou em cena o professor ressentido.
Estranhou-me tal crítica. De todas as turmas para as quais o tenente lecionava, inclusive a minha, apenas aquela tomou posição de reclamar dele. Não sei que motivações havia por trás dessa decisão, mas é sabido que a prática democrática produz efeitos negativos tanto quanto positivos. Quando se confunde liberdade com libertinagem, perde-se o limite do bom-senso. De todo modo, o exemplo do coronel Pinheiro sobrevive em nossas memórias. Sua atitude foi louvável, e sei que persistiu por mais algum tempo. Mas confesso não ter notícias sobre a sua continuidade.

...

Sobre o coronel Pinheiro, há que se dizer que deu exemplo até na hora mais sombria da vida de um ser humano. No ano de 1997, pouco depois, portanto, de deixar o comando do CMRJ, o coronel foi promovido a general. Recusou a patente. O motivo: fora acometido por uma forma violenta de câncer, que não lhe daria mais que alguns meses de vida. O Exército, diante de tão digna postura, bateu pé firme. E o coronel Pinheiro morreu general. Minha turma se formava naquele ano, e teve a honra (falo por mim, mas creio que essa seja a opinião da esmagadora maioria dos alunos da época) de o seu paraninfo ser o general Pinheiro.
segunda-feira, junho 30, 2003
 
Hulk ainda esmaga (mas com carinho)

Não me venham com piadinhas infames depois, porque o fato de um macho de 24 anos como eu dizer que admira um gigante verde supermusculoso com quase cinco metros de altura com certeza vai suscitá-las. Mas como eu poderia deixar de estar lá, na primeira sessão da pré-estréia de Hulk, na quinta-feira passada? Corri para o cinema, como eu soía fazer há alguns anos em direção às bancas de jornal, à procura das revistas dos heróis da Marvel recém-saídas do forno. Na minha infância e adolescência eu devorava pilhas de histórias em quadrinhos. E o monstro que representava o lado mais sombrio do Dr. Bruce Banner era um dos meus favoritos.

Portanto, claro, não vou me furtar a comentar o filme. Vou logo antecipando: gostei do resultado. Porém, com algumas ressalvas. Fazendo um exercício de reflexão, pus-me no lugar de um leigo que assiste à película e, dessa forma, elogiei mentalmente o trabalho do diretor chinês Ang Lee (O Tigre e o Dragão). Ponderei comigo mesmo: “Ok, ele conseguiu transformar a figura do Hulk, toda feita por computador, em algo verossímil.” O enredo também é envolvente, embora a história seja longa demais (o mesmo pecado que, a meu ver, comprometeu Homem-Aranha). Mas, enfim, prende a atenção e é eficiente ao que se propõe, ou seja, entreter o público.

No entanto, como antigo fã da personagem, o filme me deixou com certa sensação de “quero mais” e um incômodo, devido a algumas licenças poéticas de Lee. Por quê? Ora, faltou, na verdade, uma boa cena de pancadaria. Muitos vão dizer: “Mas você queria mais?”. Claro, meus caros. Digam, na boa: em qual momento o Hulk realmente perde a linha, torna-se uma besta completamente insana? Eu não vi. Ele não matou ninguém (a não ser aqueles cachorros gama dispensáveis, mas isso nem conta). Transpuseram para a tela um Hulk politicamente correto, que chega a chorar numa cena. O monstro verde, nas HQs, não é bom nem mau. Ele é apenas uma fera incontrolável que, com sua força descomunal, pode sim provocar uma tragédia de grandes proporções. E isso o Lee ficou devendo. (Para os iniciados, lembro uma série da antiga revista o Incrível Hulk, entre os números 74 e 77, no qual o Hulk, depois de destruir uma cidade inteira no Novo México, só pôde ser detido pela união de esforços dos Vingadores da Costa Leste e Oeste; esses eventos desembocaram no retorno do Hulk Cinza).

Outro pormenor: o general Ross poderia ter sido mais enfático no seu ódio ao monstro verde. Nas revistas, não custa lembrar que o irascível militar morreu por conta dessa raiva, após transformar-se no poderoso Zaxxx, num acidente de laboratório. Já a licença poética que o Lee usou para modificar a cronologia original deve ter sido o que mais incomodou os fãs de longa data do Hulk. Nos quadrinhos, Banner se torna o Hulk ao salvar o jovem Rick Jones durante um teste com raios gama. Na telona, o pai de Bruce teria engendrado todo o processo, sendo o acidente apenas mais um fator que permitiria o surgimento do alter ego do rapaz. Posso até estar enganado, porque minha memória falha agora quando tento me lembrar que papel era reservado ao pai de Bruce nos quadrinhos, mas acredito que nunca tenha existido esse antagonismo entre os dois. Ou seja, o maior vilão da história era um desconhecido para os iniciados. E Jones, personagem importante não só para o Hulk, mas para outros desdobramentos no universo Marvel (como a estrita ligação com o falecido Capitão Marvel), poderia tranqüilamente ter dado o ar da graça. Abrilhantaria a história.

E, para finalizar: vamos concordar que a Jennifer Connely, na pele de Betty Ross, foi subaproveitada nesse filme. Uma gostosa daquelas não protagonizar nenhuma fogosa cena de sexo é um desperdício. Faça-me o favor, né?

domingo, junho 29, 2003
 
Não sei como me livrar desses irritantes pontos de interrogação!
 
Amigos, vocês bem sabem que não gosto muito da idéia de um blog como diário. A isso prefiro fazer dele espaço para postagem de contos e ensaios jornalísticos. Mas, como minha vida deu uma guinada nos últimos dias, faz-se necessário que eu atualize alguns sobre os mais recentes eventos na trajetória de Jorge Eduardo Machado.

Pois bem, vocês também sabem que eu estava, desde abril, trabalhando no Extra, braço popular da Infoglobo. Não estou mais. Aliás, a semana que passou foi marcante no que diz respeito ao jornalismo e EU (uma relação que para muitos poderia parecer umbilical). Abandonei minhas ambições nessa profissão para dedicar-me ao estudo do Direito. Começo a nova faculdade em agosto (mesmo mês em que faço aniversário). Por ora, continuo ligado ao ofício de Balzac, já que volto ao meu berço jornalístico, a Folha Dirigida. Um emprego que me renderá uma grana e, o mais importante, tempo para continuar estudando.

Outra novidade: (sem querer parecer viadinho, mais isso é importante para mim) minha família adotou um novo cachorro. Não sei a raça da mãe dele (o pai decerto era vira-lata), mas não importa. Com pouco mais de dois meses de vida, Guga (ele é homônimo do nosso tricampeão de Roland Garros) é a nova alegria da casa. Ele vem para preencher uma lacuna que existia desde a morte de Brizolinha, o vira-lata que nos acompanhou por uma década, até nos deixar no ano passado. Somado ao Jamanta (o gato de quase cinco anos que criamos), Guguinha promete formar uma dupla que nos dará muito trabalho (mas também muita satisfação). Seja bem-vindo.

Paralelamente ao “abandono do jornalismo”, anuncio oficialmente: não me peçam mais para levar as mulheres a sério. Depois de duas decepções consecutivas (ou três, se eu for mais rigoroso, mas a primeira delas eu nem levo em conta, porque a pessoa não valia a pena), decidi enxergar o óbvio: vou seguir à risca o adágio que diagnostica que cada um é aquilo que pode ser. Eu, portanto, serei o que a vida me reservou ser. Um indivíduo ímpar, porém feliz. Afinal, acreditem: enxergar as coisas desde este ponto-de-vista é muito divertido. A minha verve já me garante uma boa companhia: EU mesmo. E nada mais espero quanto a isso.

Ah, e finalmente. Vou postar em breve dois novos contos. Para que não digam que estou enrolando, adianto as sinopses:

MELHORES DO MUNDO – Num universo cada vez mais competitivo, no qual todas as pessoas parecem ser obrigatoriamente boas em algo, Bob é um indivíduo deslocado. Entediado com seu emprego burocrático, morando sozinho e vivendo a crise dos 40 anos, ele aparentemente nunca se livrará da mediocridade que o condena a uma existência descartável. Até o dia em que, inadvertidamente, Bob descobrirá também possuir uma habilidade muito especial. O que não será necessariamente bom!

O QUARTO TEMOR – Verdadeiro Messias cujo desígnio é salvar o Rio de Janeiro de 2030 da violência reinante, Virtux é um paranormal superpoderoso. Mas sua missão não será nada fácil. Além do Triunvirato — uma tríade de vilões disposta a tudo para continuar dominando a cidade — ele terá de confrontar seu mais terrível antagonista. E, contra esse, talvez não haja o que fazer.

Grande abraço e até a próxima.

PS: Prometo ser mais constante. (Quem não quiser acreditar, entendo :-)

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